CANTO NOTURNO - Lugar de Poesias, contos e outros devaneios...


04/11/09


DIÁRIO

 

Um sábado

 

 

            Te beijei em um bar. Nada mais banal para o início de uma relação, casamento, namoro, sei lá. Desde então é mistério, entremeado de rotina. A gente não decide se é mistério ou rotina. Você reclamou que estava muito claro. Mas era meia-luz, e nos beijamos entre dezenas de testemunhas. Minha vida é louca, e mesmo sendo você tão louca quanto, a gente parece incompreensível um pro outro.  Nem tanto. Você tem os verdadeiros olhos de Capitú. Eu me afogo no teu olhar. Continuamos à meia-luz, em meio-tom.

 

Uma Quinta

 

            Pegaria o ônibus pra te encontrar. A tensão da espera. Estava indo pra tua casa sem te avisar. Será que eu te encontraria? Ou melhor, o que eu encontraria. Te ligo e você não atende. Como isso é terrível. Começo a ler Clarice, a Lispector ou a do Érico. Você que é terrível. Amar é fazer sofrer? É sofrer e fazer sofrer. Me deito e olho pro teto. Tomo uma decisão. Vou te ver de qualquer maneira. Vamos para o impulso. Saio pra rua, vou ao ponto do ônibus e uma chamada tua no celular me alcança. A raiva se dissipa, o que parecia desprezo vira declaração e me tranqüilizo. Mais uma dessas e eu infarto. Noto que existem pessoas caminhando na Celso Garcia no início da noite, a Celso Garcia que concorre ao prêmio de rua mais feia de São Paulo. Respiro, caminho de volta mais calmo.

 

Um Domingo qualquer

 

            Eu detesto domingos. Domingo é a véspera do sofrimento. É o reinicio do cotidiano cinzento, da insuficiência. Neste domingo eu não te vi. Almocei com a minha tia velhinha. Fui devolver o meu filho pra mãe. Não somos livros em branco. Olhei as mulheres, a maioria separadas, levando os filhos no teatro infantil. Todos trepam com todos. O mundo é um festival de comparações, de ciúmes regressos, de amores incompletos. Como era com o pai dos teus filhos, como era com a mãe do meu? Carregamos feridas de amores antigos. Algumas ainda sangram. Tens consciência de como eu prezo o passado. Isso atrapalha, mas é normal. A normalidade dos pais e mães separados levando os filhos no teatro infantil.

 

Segunda-feira

 

            Fazia contas no trabalho. Como existem poetas no mundo. Em frente ao micro, encarando uma planilha, meus colegas de trabalho pareceram mais alienados do que o normal. Afrouxei o nó da gravata. Pensei seriamente na idéia da morte. Olha a novidade.  Eros e Tanatos. Virarei um estudo de caso dos temas clássicos. Levantei para tomar café e a rua Boa Vista me pareceu fantasmagórica através da janela. Quando me lembro de ti em alguns momentos tenho uma sensação de irrealidade. Você me diz que não é tudo isso. É tudo isso e muito mais. Acendo um cigarro no fumódromo. O anti-tabagismo é uma forma de opressão das mais injustas. Fecho os olhos e penso no resto da semana. Dormiremos juntos na quarta-feira. Será? Não vivo sem tocar a tua pele rosada.

 

Sexta-feira outra vez

 

            Corri pra casa pra tomar banho e me vestir. Poderia estar pronto pra sair, pois a casual friday virou mania em todos os escritórios do mundo. Vejo os teus cabelos, e não consigo pensar nos teus cabelos sem ver teus ombros nus, teus braços firmes. Um sonho erótico me acomete. Conto os minutos. São 7 horas, marcamos às nove. Encararei o metrô novamente, te encontrarei no centro. Por mais que eu me controle, não escapo do exagero. No trem do metrô, jogando os joguinhos do celular (você não gosta que eu carregue livros quando a gente sai) eu respiro arfando, suo, temo. Será que te farei feliz? Terás prazer na minha companhia? Você, muitas vezes, é muito severa. Minha alma está na tua mão, por sobre as dúvidas, além dos temores.

 

Sábado

 

            Cinema, jantar, trepada. O que os casais de namorados quarentões fazem. A invenção dos nossos tempos. Casais de namorados maduros, quarentões, cinqüentões e até sessentões. Antigamente os jovens namoravam e os adultos casavam. Agora é o contrário. Estás nua ao meu lado. Sou louco pelo teu corpo. Teu corpo me prende. Renasço entre as tuas pernas, teus pés nas minhas ilhargas. Adormeces. Eu não. Não consigo. Quero gozar mais uma vez, mas não consigo. O físico não corresponde mais ao desejo. Envelheço, portanto temo. Sei que estás a bater asas. E a triste sensação de que és a minha tábua de salvação.

 

Quarta chuvosa

 

            Cai um pé d’água em São Paulo. Temo em te telefonar. Prefiro a tua ausência. Meu filho dorme no quarto ao lado. Livros, uísque, cigarro. Estou louco por um café. Sofro, e não sofro. Ligo a TV. Preciso te telefonar. Falta coragem. Olho para os meus pés. A barriga não diminui de jeito nenhum. A minha nudez deve ser grotesca, em contraste com teu corpo tão bonito, um belo corpo maduro, bem esculpido, relegando a flacidez. Tento criar algum sinal de desprezo. Eu te quero, como um vício, um exercício masoquista. Amanhã recomeçam o dia e as dívidas.

JORGE FREITAS

Escrito por WGJF às 20:59
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03/11/09


POEMA DE SANTOS

 

Como Pagu,

aportei no porto vermelho exilado.

Enfarado,

encontrei nela a ardósia dos olhos.

Feito Martin Afonso, colono,

pra cima e pra baixo na ilha de são vicente,

andava de braço dado com ela

e procurava um beijo e um bar.

Eu não era só,

e como eu não era só na pequena barcelona,

único lugar em que não fui só.

O cheiro do peixe.

O carro no paralelepípedo da doca.

O bronze do estivador em estátua.

Navio na barra do porto.

O cais que é mito, miragem e extensão,

contemplação e trabalho

misturados numa tal ponta da praia.

E eu, qual Plínio Marcos,

procurava a alma no macuco,

bebendo e dançando nos cabarés noturnos...

O jabaquara era quilombo,

a vila mathias foguetório em janeiro,

a vila belmiro é glória, muita glória.

O jardim mais grande do mundo, fotografia.

E os prédios da praia entortam na curva da arquitetura.

E eu, enquanto Calixto,

buscava a fina paisagem,

que é edifício,

que é areia e mar,

que é gente e um monte de coisa,

e encontrava a ardósia dos olhos,

o regaço macio e acre,

amor militante e sonho,

a paz severa e a esperança...

 

Na pequena barcelona não fui só,

encontrei o beijo,

aportei no bar.

 

 

 

Jorge freitas

Escrito por WGJF às 21:08
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